24
Esta mudança de casa não estava propriamente nos meus planos, mas começou a incomodar-me a sombra que se esconde no escuro, lá em baixo, noite após noite. Incomoda-me o falso pudor dos vizinhos, delas que invejam os orgasmos que ouvem através das paredes mal isoladas, deles que me comem com os olhos, que entrariam em minha casa ao mais pequeno sinal, mas que se fingem chocados com as visitas que recebo, dizem que dá mau ambiente ao prédio.Puta que os pariu a todos.Aqui ninguém me conhece, nem eu conheço bem esta parte da cidade, mas tanto melhor. Sei que é sempre tudo igual, em todo o lado. É tudo uma questão de tempo, mas enquanto não se lembrarem de me aborrecer, e até pode ser que me torne mais paciente, estarei descansada.Esta casa é grande, maior do que a outra, e não tem a presença do Vítor, não o vejo a encostar-me à parede, segurando-me pelos pulsos, beijando-me a boca, o pescoço, as mamas, o umbigo, ajoelhando-se a meus pés enquanto me lambia a cona, antes de me pegar por baixo das pernas e de me foder enquanto o jantar que tinha preparado cozinhava lentamente no fogão.Aqui posso resnascer. Posso esquecer que já acreditei que um certo tipo de felicidade é possível. Aqui posso abrir a porta a qualquer um sem a pesada sensação de que estou a trair esse homem que quase me fez acreditar que uma foda é melhor se houver também algum... sentimento.É maior esta casa. Tem mais janelas e maiores. Fica na cobertura do prédio. É mais impessoal. Gosto mais desta.Aqui posso sentar-me no largo parapeito da janela, ver as difusas formas de quem passa na rua, não ser incomodada pelo toque do telefone ou pelas luzes vermelhas do atendedor de chamadas. Posso embaciar os vidros da janela e fazer desenhos absurdos enquanto me lembro da cara chocada dos vizinhos quando, ao passarem, me viram a ser fodida por um dos rapazes da empresa de mudanças. Não foi sequer uma boa foda, mas eu fingi que gostei, fingi que também desejava o outro, mais velho, quando ele me enfiou a pila na boca e pensou que me obrigava a fazer-lhe um broche. E ri, descaradamente, quando os vizinhos pararam à minha porta, que deixei aberta, e ameaçaram chamar a polícia. E ri quando ficaram sem argumentos para a minha resposta de que também os aviaria, e àquele vizinho careca também, a ver se ele ainda se lembrava do que era foder a sério, sem medo de acordar os vizinhos ou de sujar os lençóis.Quero lá saber.Aqui não conheço ninguém, ninguém me conhece, agora ando de táxi, vendi o meu carro para que a sua presença estacionado na rua não me traia. E não me aborreço com manutenções estúpidas e idas a oficinas que acabavam, invariavelmente, do mesmo modo.Apetece-me voltara ser como era. Foder quem encontrava e escolhia e deixar-me de fodas mal paridas em oficinas, supermercados e estações de serviço, como aquela na neve, em que deixei a Cristina e o amigo a fazerem-se cócegas, saí para comprar filtros de café e acabei enrolada com um dos empregados que fodi apenas para disfarçar a frustração da cabana. Mas já nem esses disfarces funcionam.A idade trouxe-me, lentamente, a um amadurecimento em que preciso de mais, não me basta foder quem me acene. Preciso de ser mais selectiva, por mim.Comecei por escolher uma nova casa. Acredito que, à laia de resolução de ano novo, isto seja um começo. Não sei bem de quê, mas viro a página, veremos o que está escrito para mim mais à frente.

<< Home